Chris Cornell: O Sol negro chegou
Postado em 19 de maio de 2017 @ 16:22 | 622 views


Tem dias em que não estamos emocionalmente preparados para algumas notícias, e na verdade nunca estamos preparados para lidar com a morte, a mais terrível separação que podemos (tentar) encarar.

Chris, durante sua última apresentação ao lado do Soundgarden. Photo by: Ken Settle

O país está vivendo um dos seus mais controversos momentos políticos de toda a sua história, e enquanto panelas pairam em silêncio e gravações iniciam um estopim evidente,  fomos “brindados” com a perda de uma das maiores vozes de todos os tempos: Chris Cornell.

Photo by: Jeff Lipsky

Photo by: Jeff Lipsky

Ceifaram-nos de um timbre único, um olhar penetrante e um estilo ímpar. Quem sabe o mais triste de ver Chris partir, seja a ausência de uma despedida como ele merecia, mas o fato é que ele mesmo quis partir sem avisos ou flores.

O ano havia começado promissor e avassalador para o homem da voz inconfundível. Tour com o Temple of Dog, Reunião com o Audioslave, Canção tema para um filme, tour e gravação de um novo disco do Soundgarden, etc… Tudo isso depois do lançamento do seu último trabalho solo, que teve uma excelente repercussão na crítica especializada (além de uma tour mundial que passou aqui pelo Brasil).

Não estávamos esperando isso, Chris. Confesso que não acreditei quando vi tua foto com uma legenda que não gostaria de ter lido. Você foi embora na flor da tua idade, quando ainda queríamos mais da tua voz, das tuas letras e do teu charme.

Desculpe-me, mas a partir de agora falarei um pouco como um fã que acompanhou a carreira desse belo vocalista nos últimos 15 anos. Quem sabe fique um pouco emotivo, mas as lágrimas serão digitais, eu prometo.

Photo by: Michael Lavine

Quando despontou ao lado do Soundgarden no final dos anos 80, formando um “BIG 4” ao lado de Alice in Chains, Pearl Jam e Nirvana, muitos passaram a se perguntar quem era aquele cara cabeludo e com uma voz estrondosa. De todos os vocalistas da era Grunge, e digo, todos excepcionais, Chris era aquele que você sempre usava como supertrunfo em uma conversa entre amigos.

O Soundgarden durou pouco mais de uma década até seu precoce “fim” no final dos anos 90. De toda a discografia que a banda lançou, no mínimo cinco grandes sucessos marcaram uma geração inteira no que viria a ser chamado de Era Grunge. O que mais chamava a atenção no Soundarden eram as letras carregadas de melancolia e poesia. Era pesado e leve ao mesmo tempo, vide o disco mais conhecido da banda “Superunknown“.

Após o fim, Chris tentou mostrar que ainda era versátil, e nunca teve medo de mudar o seu estilo visual ou musical. Seu primeiro disco não foi o que todos esperavam e ele seguia querendo mostrar que tinha mais a oferecer com seu peculiar jeito de levar a carreira.

Photo by: Danny Clinch

Quando outra excelente banda teve seu fim anunciado, o Rage Against The Machine, e Chris estava sem saber para onde ir, empresários, gravadoras e os próprios músicos deslumbraram a ideia de um supergrupo. O Audioslave foi uma das maiores bandas da década passada, e muito se deve ao som comercial, letras introspectivas, visão politizada, e ao talento dos quatro integrantes que bombardeavam rádios e a canais de TV, como a “finada” MTV com seus clipes grandiosos.

A banda durou o bastante para que Tom Morello e Chris não dividissem mais o mesmo palco (a banda viria a se reunir em um show único no começo de 2017, selando as pazes). O Rage Against The Machine viria a se reunir alguns anos mais tarde, assim como o próprio Soundgarden. Caminhos divididos, e o rapaz do cabelo curto e bigode milimetricamente cortado seguia sua sina em busca do sucesso pop e cada vez mais distante.

Photo by: Randall Slavin

Alguns discos foram lançados, mas nada que comparado aos clássicos do Soundgarden como “Superunknown” ou “Audioslave“. Até mesmo uma parceria com Timbaland foi feita. Um dos piores momentos da carreira, que tem um desvio na curva com a excelente música tema “You Know My Name“, onde Chris interpretou na consagrada série de filmes do agente 007.

Nessa altura do campeonato, Chris já havia casado e estava formando uma bela família. Abandonou o passado cheio de abusos e festas que viveu até boa parte dos anos 2000. Ele nunca negou que seus maiores sucessos foram feitos sobre influência de drogas ou que o álcool foi um grande amigo durante muitos anos.

Suas letras sempre foram intimistas demais, expondo demais, exalando poesia demais. Nunca foi o frontman que parava multidões, ou o cara que sabia como ter uma plateia nas mãos em diferentes momentos do show. Ele vestia um casaco qualquer, um par de botas e pegava um violão. Pronto! Hipnotizava milhares com sua voz e um olhar que nos fazia sentir medo. Sua boca nunca acompanhava seus trejeitos. Balbuciava as palavras, e quando via que a música estava morrendo, largava um dos seus tradicionais agudos, mostrando que sua voz era algo de outro planeta.

Um disco acústico, reunião e um novo lançamento de inéditas com o Soundgarden, uma rede social sempre atualizada, entrevistas nos maiores programas dos Estados Unidos, uma bela família, músicas tema para filmes, incluindo a franquia 007, um ótimo disco solo, novos planos para 2017, novos lançamentos e de repente, tudo acabou e o vazio ficou.

Não fomos nós que saímos perdendo, os fãs que ainda paravam para ouvir novos lançamentos desse cara, e sim a arte, que viu um dos maiores se calar.

Seu cabelo desgrenhado perfeitamente não será mais visto. Seu olhar penetrante não será mais fotografado, e infelizmente sua voz, ao vivo não ecoará mais em nossos peitos.

Obrigado por ter feito companhia durante noites mal dormidas ou durante alguma reunião com os amigos. Perdi a conta de quantas vezes tentei cantar várias das tuas canções no karaokê, e a conclusão foi sempre a mesma “nossa não dá! Esse cara canta muito!”.

Chris, durante sua última apresentação ao lado do Soundgarden. Photo by: Robert Sherman

Na quarta-feira, antes de ir embora para a casa, coloquei “Yesterday to Tomorrow” para ouvir, uma canção não tão conhecida do Audioslave. Mal sabia eu que naquela mesma noite você iria embora. Eu te dedico os primeiros versos:

“Beauty is what the eyes behold, and you burn brighter than most.”

“Beleza é o que os olhos contemplam, e você queima mais brilhante do que a maioria”.

Chris, você foi quando realmente quis ir. Será que alguém poderia ter feito algo que te fizesse mudar de ideia? Durante todos esses anos você pediu ajuda da melhor forma que sabia fazer. Sua melodia, seu violão, suas letras e seus acordes. Estava lá, o tempo todo. Desculpe, mas para nós sempre foi arte, e nunca um clamor por ajuda. Quem sabe nunca tivesse sido e nunca fosse a tua real situação. Desculpe por ter ido sem um abraço ou uma homenagem como você merecia, amigo.

Chris, durante sua última apresentação ao lado do Soundgarden. Photo by: Ken Settle

Quem sabe sua mensagem final estava escondida dentro do seu último disco solo, e ninguém identificou, mas a poesia escondeu um pouco da tua melancolia.
Adeus, Chris! Obrigado por tudo! Obrigado por me ensinar que “ser você mesmo é tudo o que pode fazer“. Espero que onde você estiver, encontre a paz que não conseguiu por aqui. Tua música não morrerá, eu prometo! See you, buddy!

“That time can hide the years like we were never here,
so hold on tightly my dear, before we disappear.”

“Esse tempo pode esconder os anos como se nunca estivéssemos aqui, então abrace firme, minha querida, antes que desapareçamos.”

Verso final de “Before We Disappear“, canção do último disco de estúdio de Chris Cornell, “Higher Truth” lançado em 2015.

Foto da capa por: Daniel Williams

 

Aspirante a jornalista, além de ser designer e escritor. Trabalha como roteirista/apresentador no Heavy Talk e como administrador/editor no HIM Brasil. Grande pesquisador do metal nacional e principalmente do metal finlandês. Força Sempre!

 
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