Chester Bennington: A Sombra do Dia
Postado em 24 de julho de 2017 @ 12:03 | 482 views


Algumas feridas demoram para cicatrizar, outras são apenas arranhões que em poucos dias desaparecem.

Quando pensamos estar passando por uma cicatrização, eis que outra voz se calou solitariamente, rasgando novamente os pontos invisíveis.

Chester durante um show da One More Light Tour.
Photo by: Davide Merli

“Sometimes beginnings aren’t so simple,
Sometimes goodbye’s the only way.”

“Às vezes começos não são tão simples
Às vezes o adeus é o único jeito
.”

Refrão de “Shadow of The Day“, canção do disco de estúdio do Linkin Park, “Minutes to Midnight” lançado em 2007.

Poucos rostos conseguem ser tão marcantes quando é necessário representar uma década. Com certeza, Chester Bennington é uma dessas faces. Seu cabelo descolorido e óculos ajudaram o Linkin Park a se tornar um dos maiores fenômenos musicais dos anos 2000. Sua agressividade e potência na voz rivalizava com os raps de Mike Shinoda, que juntos venderam milhões de cópias mundo a fora. Se você ligasse qualquer rádio durante o específico ano de 2003, seria impossível em menos de 30 minutos não ser tocada algum hit do sexteto norte-americano.

Linkin Park. Photo by: Mike Hunt

Chester não foi apenas a voz de uma banda de rock, e sim a garganta que milhões de jovens ouviam diariamente. A cada novo vídeo, foto e aparição, era notável a mutação da personalidade do vocalista. Suas letras traziam não só críticas sociais, como mensagens de força e por muitas vezes de sofrimento.

Dead By Sunrise. Photo by: Travis Shinn

Dizem que a cabeça vazia é a oficina do diabo, e independente da sua crença, a verdade é que quanto mais ocupado você se manter, mais tempo para focar em bons momentos terá. Chester não parava. Por mais que o Linkin Park seguisse em um ritmo alucinante, com discos de estúdios, remixes, EPs e material ao vivo, a cabeça de Chester estava sempre a procura de mais canções, ritmos e melodias.

O Dead By Sunrise foi um projeto que o vocalista começou no final dos anos 00, e tinha uma sonoridade realmente fora do que sua banda principal estava acostumada a fazer. Infelizmente o projeto morreu antes de se manter firme como um nome da cena alternativa.

Stone Temple Pilots with Chester Bennington.
Photo by: Chapman Baehler

Apesar de ser uma banda platinada artisticamente e comercialmente, Chester e Shinoda sempre fizeram questão de fazer a banda soar diferente a cada disco, e se você parar para ouvir cada lançamento do Linkin park, verá que há verdade nessa afirmação, assim como a base de fãs aumentava fortemente. Se a banda perdia 3 fãs que diziam estar incomodados com o direcionamento musical, eles ganhavam 7 novos fãs que adoraram o estilo do último disco.

O rap/rock focado no nu-metal ficou nos dois primeiros discos, “Hybrid Theory” e “Meteora”. “Minutes to Midnight” foi o ponto de mudança sonora e transformou o grupo em uma banda de arena focada em letras mais voltadas para o ser humano e suas dúvidas existenciais. É visível a sonoridade mais pop e direta em cada um dos últimos discos desde 2007, mas Chester seguia buscando mais.

Em 2013 assumiu (sempre paralelamente ao Linkin Park) os vocais de uma banda que ouviu durante sua adolescência: Stone Temple Pilots. Era uma espécie de contradição do grupo grunge. Colocar alguém que superou as drogas e o álcool no lugar de alguém (Scott Weiland) que sempre se afundou nesses itens. E lá estava Chester, sorrindo e desfilando seu talento inegável.

O trabalho foi excelente, mas quando se trabalha com gravadoras, fãs ferozes, contratos e uma agenda enorme, você não consegue focar em muitos lados. Chester precisou sair da sua aventura noventista e voltar para as luzes de sua banda principal.

Linkin Park. Photo by: James Minchin

Quem sabe todos esses projetos realmente fizeram Chester refletir, que por mais longe que ele tentasse ir, ele ainda estaria preso dentro de sua cabeça.

Chester nunca escondeu seu passado com dependência química ou abuso sexual que sofreu quando criança. Ele sempre foi inquieto e gentil, educado e incisivo, inteligente e visceral. Um artista no mais alto nível em cima de um palco ou ecoando no seu rádio.

A verdade é que ele estava cansado, e dá pra ver isso nas entrelinhas dos últimos meses.

Chris Cornell abalou a indústria da música quando decidiu partir após um show no último mês de Maio. Chester era seu amigo íntimo e a notícia não só o chocou, como mexeu com seu interior. Ele cantou e chorou muito durante aqueles dias. Fez homenagens e sentiu o abalo quando preparava-se para entrar de cabeça no lançamento de um novo trabalho do Linkin Park. As críticas estavam pesadas, pois além da sonoridade ser mais pop em relação aos trabalhos clássicos do grupo, o maior foco do disco (as letras) não estavam sendo levadas em conta.

Se você ler a letra de “Heavy”, conseguirá ver que está carregada de dor:

“I don’t like my mind right now
Stacking up problems that are so unnecessary
Wish that I could slow things down
I wanna let go, but there’s comfort in the panic
And I drive myself crazy
Thinking everything’s about me
Yeah, I drive myself crazy
‘Cause I can’t escape the gravity.”

“Eu não gosto da minha mente neste momento
Empilhando problemas que são tão desnecessários
Queria poder desacelerar as coisas
Eu quero deixar pra lá, mas há conforto no pânico
E eu enlouqueço
Achando que é tudo sobre mim
Sim, eu enlouqueço
Porque não posso escapar da gravidade.”

Chester, durante um dos últimos shows ao lado do Linkin Park.
Photo by: Sarah Louise Bennett

Nas entrevistas recentes ele fez questão de comprar a briga sobre o novo momento que a banda estava vivendo, e cá entre nós, o peso continuava ali, apenas de uma outra maneira. O show ao vivo continuava com seus hits, apenas alternando novos sons e novos olhares. A verdadeira briga de Chester era que as pessoas estavam preocupadas com peso, enquanto ele vociferava dor nas letras.

Chester deixou de gritar com o passar do tempo. Dizem que ele perderia a voz se continuasse naquele ritmo, e por mais técnica que colocasse, parece que ele mesmo optou por deixar de alcançar tons altíssimos para expressar suas dores e angústias. Continuou compondo e escrevendo, cantando e destilando suas letras.

O problema é que a maioria das pessoas não percebem como o artista se expressa, e por mais belo que aquilo seja, não é apenas arte, ficção ou entretenimento barato. É dor, agonia, amor e emoção. É entender que muitas, muitas vezes, aquela é a única forma de um artista ou qualquer tipo de pessoa pedir ajuda.

Chester, durante um dos últimos shows ao lado do Linkin Park.
Photo by: Adam Knowles

 

Chester estava rodeado por família, amigos e companheiros no mundo musical. Ele era o frontman de uma das maiores bandas de todos os tempos, vendeu mais discos que seus ídolos e tinha uma vida luxuosa o bastante para viver bem, mas no final das contas, quanto isso realmente importa?

As pessoas acusam sem saber, e é notável o quanto nos falta de empatia em momentos como esse. Nos falta entender quando é dor, mesmo sendo melodioso o bastante em nossos ouvidos. Na maioria das vezes nos falta gritar e afastar nossos demônios para o mais longe possível, como Chester gritou por décadas.

Alguns podem dizer que ele foi covarde, deixando família e amigos, que precisavam e precisam dele, mas na verdade ele foi forte, e forte o bastante para aguentar até onde aguentou. Infelizmente nos faltou pulmão e energia para segurá-lo, algo que ele sempre teve de sobra.

Não veremos mais sua presença em cima de um palco, mostrando suas tatuagens estranhas e seus pulos um pouco fora do tempo. Aquele sorriso genuíno não estará mais por aí enquanto acerta cada nota precisamente no meio de milhares de luzes e olhares.

Ontem foi aniversário do Chris, e quem sabe ele queria apenas dar um abraço e dizer o quanto sentia falta de alguém que parecia entender a dor que ambos sentiam silenciosamente.

Mais um timbre nos foi ceifado por conta própria. E em momentos como esse, percebemos o egoísmo que nos cerca enquanto tentamos seguir nossa vida como se tragédias não acontecessem perto de nossos olhos e corações.

Sentiremos tua falta, e quem sabe um dia vamos perceber que Chester estava certo quando perguntava o motivo de tudo ser tão pesado.

 

“I’m holding on. Why is everything so heavy?
Holding on, to so much more than I can carry
.”

“Eu estou segurando. Por que tudo é tão pesado?
Segurando, muito mais do que eu posso carregar.”

Refrão de “Heavy“, canção do último disco de estúdio doLinkin Park, “One More Light” lançado em 2017.

Foto da capa por: Kevin Winter

Se você sofre de depressão ou sente uma extrema tristeza dentro de você, procure ajuda ou alguém para te auxiliar.

Ligue 141 para pedir ajuda.
CVV | Centro de Valorização da Vida

Aspirante a jornalista, além de ser designer e escritor. Trabalha como roteirista/apresentador no Heavy Talk e como administrador/editor no HIM Brasil. Grande pesquisador do metal nacional e principalmente do metal finlandês. Força Sempre!

 
Categoria: Artigos · News
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